24 agosto, 2015

LVII - Photographia

Geava como não se via há anos. Como não havia nada o que fazer, resolvemos fuçar no quartinho das bagunças. É incrível como somos capazes de acumular coisas que nunca mais serão usadas, achando que um dia será útil. Contas pagas de 1990, lata de tinta branca com um finzinho praticamente seco, sacolas plásticas, ferramentas e parafusos.

Eis em meio a tanta desordem, uma máquina fotográfica daquelas de filme estava jogada por lá e como dois curiosos, não podíamos deixar de verificar se funcionava. Fuçamos mais um pouco para encontrar filmes e pilhas também.

E então começou a brincadeira. Tirávamos foto disso ou daquilo, dela e minha, tirávamos fotos do frio, do sorriso, da mão roxa e das plantas congeladas. Tirávamos e tirávamos, ríamos aos montes e nos aquecia. Tirávamos mais e mais, amávamos e tirávamos, e no fim, estávamos somente nós, sós e nus.

07 novembro, 2014

LVI - Um Cara Chamado João

Um João, ou Jão, como dizem pejorativamente por aí. Quantos Jãos você conhece? 

Sempre conhecemos um e ele nunca é o mocinho da história. Também não é vilão. É um Jão! Secundário que é, não opina, não muda, não soma nem subtrai. Multiplica, talvez, em muitos outros Jãos.

Mas isso é generalizando. Eu conheci um Jão que conseguiu em alguns minutos neutralizar uma nação. Sim, neutralizar. Tornar neutra toda uma nação. Tudo em teoria, eu acho.

Foi em uma canção que Jão escreveu algo que faz qualquer um parar pra pensar, mesmo que por poucos instantes. Ela diz como seria se...

Tá certo que no fim das contas, pra variar, Jão não fez nada além disso. Não mudou a nação, não virou herói. Virou ídolo, talvez, mas não pra todos, afinal, um planeta é formado por gregos e troianos, e por isso não podemos agradar aos dois.

Mas ele fez a parte dele e depois disso, partiu. Partiram com ele. Era Jão, não era?

Não sou muito bom de memória, mas me lembro mais ou menos de algumas coisas que ele disse:

Feche seus olhos e imagine que não existe paraíso, nem inferno, só o céu.
Imagine todas as pessoas vivendo para o hoje, sem se preocupar com amanhã.
Imagine não existir países, nada pelo que matar ou morrer.
Já pensou se não tivesse nenhuma religião também?
Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz, já pensou?

Você deve achar que sou um sonhador, não é?
Mas não sou o único, tenho a esperança de que um dia você também pense assim!
E aí o mundo será como um só.

Continua imaginando, agora não existir posses, luta por terras.
Será que você consegue imaginar isso? Difícil né?
Sem necessidade de ganância ou fome, sabe?
Uma irmandade do Homem!
Imagine todas as pessoas compartilhando todo o mundo. Seria bom demais...
Essas são algumas das palavras que o João disse. Será que faz sentido pra você?



*O texto citado acima é uma adaptação livre feita para esse texto, baseada na letra original da música Imagine, escrita por John Lennon.

20 abril, 2014

LV - Insônia

Estava ali, exercendo a insônia, no silêncio da noite, no escuro do quarto, pensando no que a vida já me proporcionou e analisando o que poderia ainda proporcionar.

Contava os segundos na cabeça, o tic-tac do relógio ficava por conta de meus dedos tamborilando sobre minha barriga.

Nada. Ainda exercendo-a.

Até que a chuva veio, cantou no telhado da casa vizinha a canção que me faltava. Cantou e ao me ver encantado, convidou-me a dormir.

Boa noite.

Dormi que nem vi. Quando acordei já era dia e a chuva já tinha partido.