Caía “aquela” chuva. Mas tudo ali era culpa do chuveiro quente. É engraçado, basta chover que descobrimos que as buzinas dos carros não servem absolutamente para nada! Estava ali, observando cada luz de freio que acendia e apagava e o barulho ensurdecedor das buzinas não me deixava explicar porque tudo aquilo era culpa do chuveiro quente. E como buzinas não têm nada a ver com chuveiro quente, saquei dos meus protetores auriculares e tapei aquela poluição que me cegava aos poucos.
Agora sim fazia sentido. Se não fosse o chuveiro quente, ninguém iria se importar em tomar chuva e ficar molhado. Aquele trânsito misturado com gente desesperada parecia até um monte de insetos que se chocavam com os vidros dos carros nas auto-estradas. Era uma buzina e um berro... E tudo por culpa do chuveiro quente. Pensem vocês, que se tivessem acostumados a tomar banho gelado, não teriam problema algum em tomar banho de chuva, não é? Chega a ser ridículo. Pois bem, fiquei por ali algum tempo, observando, rindo por dentro até o fim do último cigarro do meu maço. Permaneci por ali, desta vez, emburrado. Afinal, por culpa do chuveiro quente, não pude atravessar a rua pra buscar um maço novo e ali naquele bar que eu estava só tinha cigarro com pulmão podre. Esse eu não compro, já que não sofro de gravidez, só compro o que causa problemas na gestação.
Das idéias vem as realizações, das grandes realizações as imagens marcantes e, de todas as grandes marcas, um rabisco, um esboço, um rascunho.
25 fevereiro, 2009
19 junho, 2008
11 abril, 2008
XXXV - Mais ou Menos Ali
Mais ou menos ali, onde o vento soprava o calor do sol forte e trazia o frescor do anoitecer, perante a cheia das marés e o clarear do luar, mais ou menos ali, talvez quinze graus a leste ou sete graus a noroeste, estive eu sentado sobre aquelas pedras. Hoje, aqui, mais ou menos a uns três metros de onde o homem da grua que levantara as pedras onde eu estive ontem; observei pela última vez o pôr do sol. Aquele mesmo sol que fora levado pela brisa e que trazia a clarear do luar nas noites frescas diante das marés cheias daquele lugar. E ali, mais ou menos ali, decidi que voltaria alguns meses depois para ver o que o edifício que será construído exatamente ali, vai esconder. Aposto que em poucos anos outros estarão mais ou menos a uns cinqüenta metros de altura, na beirada de uma janela observando o que a tal brisa traz e leva, e verão também o sol se pôr e nascer, todos os dias, até que, mais ou menos dali alguns bons anos, nem lembrarão o que é sol, nem luar, sequer a brisa, que será quebrada pelo alicerce rígido do edifício. Será exatamente ali que vai acabar, bem ali, onde bem ou mal, eu pude apreciar um pouco do que restou daquela linda paisagem.
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