05 julho, 2006

XIX - O Alfaiate - (Parte II)

Naquele dia, após isso tudo, nada mais aconteceu de incomum. Isso ao meu ponto de vista. Perante a minha realidade, não se passou de “um detalhe que fizera meu dia diferente”.

Alguém já ouviu falar da Teoria do Caos? Aquela história de que o esvoaçar de uma borboleta pode causar um furacão do outro lado do continente, ou algo que o valha.

Pois então, mal sabia eu que, naquele dia, aquele ato fora o “bater da asa” que fez a diferença.

Há três semanas atrás, aquela moça acompanhava o Albertinho, noivo por sete anos, que finalmente resolveu se casar. Só esperou o “momento certo”, que sem mais porquês e também nem tem importância, achara que já era hora.

02 julho, 2006

XVIII - O Alfaiate - (Parte I)

- Moço, você sabe onde tem um alfaiate aqui perto?
- Xi, Não sei não senhora. Eu não moro por aqui, estou indo na casa da minha namorada e... Infelizmente não sei.
- Tá bom, obrigada.

E esse foi meu primeiro diálogo do dia em plena dez horas da manhã de um domingo de sol murcho. A mulher e o filho que aparentava lá uns quatorze anos de idade continuaram seguindo na mesma rua, olhando de casa em casa na esperança de que alguma placa mágica aparecesse com os dizeres: “Aqui mora o alfaiate”.

Mesmo assim me senti incomodado em ver aqueles dois perdidos e antes de entrar na casa da minha menina, resolvi perguntar:

- Alice, aqui mora algum alfaiate?
- Mora sim. Lá em baixo, perto do mercadinho. Por quê?
- Uma senhora com o filho estavam procurando ele. Vou avisar, pois eles já estão lá pra cima.

Voltei meus olhos para os dois, como se estimasse a distância que já estavam de mim e chamei-os com voz alta e agitando os braços para que voltassem.

- Moça, o alfaiate que vocês procuram mora ao lado do estacionamento do mercado, lá em baixo.
- Ai moço, obrigada. Obrigada.

27 junho, 2006

XVII - Antes da Chuva

Voltando pra casa, fugindo da chuva, sério e inexpressivo, comecei e pensar onde foi parar aquele meu espírito agradável que ria de qualquer bobagem. Alguns condenavam e me achavam infantil quando agia dessa maneira, mas e agora, faço eu parte dessa massa?

Nesse mesmo caminho, duas senhoras riam sozinhas do outro lado da rua, enquanto brigavam de brincadeira com o vento que dobrava o guarda-chuva delas para cima e a faziam se molhar.

Na mesma calçada que eu, o mesmo vento se divertia com duas garotinhas que recebia as gotículas geladas que ele fazia cair das folhas da árvore encharcada. Elas riam como se fosse algo mágico e único, embora seus pais esbravejassem quaisquer bobagens sobre a atitude desse menino.

E tudo ao mesmo tempo. Nesse mesmo tempo, o mendigo tentava fazer um pouco de fogo debaixo da carroça de carregar papelão, e se eu fosse ele, ficaria irritadíssimo com cada sopro que o vento dava pra apagar meu fogo. Vento Maldito!

Enquanto tudo isso acontecia, eu fugia. Já não sei mais porque eu fugia de fato. Mas estava assustado e injuriado, o vento também resolveu me perturbar. Soprava a garoa fina bem na direção do meu rosto. Ah! Como eu estava odiando!

E antes que essa viagem de cinco minutos terminasse, uma bicicleta desgovernada quase me atropelou! “Olha para onde anda com essa porra!” - eu quis reclamar. Mas logo me coloquei a rir ao ver que eu quase fora atropelado por uma velha amiga. Quanto tempo não a via.