- Moço, você sabe onde tem um alfaiate aqui perto?
- Xi, Não sei não senhora. Eu não moro por aqui, estou indo na casa da minha namorada e... Infelizmente não sei.
- Tá bom, obrigada.
E esse foi meu primeiro diálogo do dia em plena dez horas da manhã de um domingo de sol murcho. A mulher e o filho que aparentava lá uns quatorze anos de idade continuaram seguindo na mesma rua, olhando de casa em casa na esperança de que alguma placa mágica aparecesse com os dizeres: “Aqui mora o alfaiate”.
Mesmo assim me senti incomodado em ver aqueles dois perdidos e antes de entrar na casa da minha menina, resolvi perguntar:
- Alice, aqui mora algum alfaiate?
- Mora sim. Lá em baixo, perto do mercadinho. Por quê?
- Uma senhora com o filho estavam procurando ele. Vou avisar, pois eles já estão lá pra cima.
Voltei meus olhos para os dois, como se estimasse a distância que já estavam de mim e chamei-os com voz alta e agitando os braços para que voltassem.
- Moça, o alfaiate que vocês procuram mora ao lado do estacionamento do mercado, lá em baixo.
- Ai moço, obrigada. Obrigada.
Das idéias vem as realizações, das grandes realizações as imagens marcantes e, de todas as grandes marcas, um rabisco, um esboço, um rascunho.
02 julho, 2006
27 junho, 2006
XVII - Antes da Chuva
Voltando pra casa, fugindo da chuva, sério e inexpressivo, comecei e pensar onde foi parar aquele meu espírito agradável que ria de qualquer bobagem. Alguns condenavam e me achavam infantil quando agia dessa maneira, mas e agora, faço eu parte dessa massa?
Nesse mesmo caminho, duas senhoras riam sozinhas do outro lado da rua, enquanto brigavam de brincadeira com o vento que dobrava o guarda-chuva delas para cima e a faziam se molhar.
Na mesma calçada que eu, o mesmo vento se divertia com duas garotinhas que recebia as gotículas geladas que ele fazia cair das folhas da árvore encharcada. Elas riam como se fosse algo mágico e único, embora seus pais esbravejassem quaisquer bobagens sobre a atitude desse menino.
E tudo ao mesmo tempo. Nesse mesmo tempo, o mendigo tentava fazer um pouco de fogo debaixo da carroça de carregar papelão, e se eu fosse ele, ficaria irritadíssimo com cada sopro que o vento dava pra apagar meu fogo. Vento Maldito!
Enquanto tudo isso acontecia, eu fugia. Já não sei mais porque eu fugia de fato. Mas estava assustado e injuriado, o vento também resolveu me perturbar. Soprava a garoa fina bem na direção do meu rosto. Ah! Como eu estava odiando!
E antes que essa viagem de cinco minutos terminasse, uma bicicleta desgovernada quase me atropelou! “Olha para onde anda com essa porra!” - eu quis reclamar. Mas logo me coloquei a rir ao ver que eu quase fora atropelado por uma velha amiga. Quanto tempo não a via.
Nesse mesmo caminho, duas senhoras riam sozinhas do outro lado da rua, enquanto brigavam de brincadeira com o vento que dobrava o guarda-chuva delas para cima e a faziam se molhar.
Na mesma calçada que eu, o mesmo vento se divertia com duas garotinhas que recebia as gotículas geladas que ele fazia cair das folhas da árvore encharcada. Elas riam como se fosse algo mágico e único, embora seus pais esbravejassem quaisquer bobagens sobre a atitude desse menino.
E tudo ao mesmo tempo. Nesse mesmo tempo, o mendigo tentava fazer um pouco de fogo debaixo da carroça de carregar papelão, e se eu fosse ele, ficaria irritadíssimo com cada sopro que o vento dava pra apagar meu fogo. Vento Maldito!
Enquanto tudo isso acontecia, eu fugia. Já não sei mais porque eu fugia de fato. Mas estava assustado e injuriado, o vento também resolveu me perturbar. Soprava a garoa fina bem na direção do meu rosto. Ah! Como eu estava odiando!
E antes que essa viagem de cinco minutos terminasse, uma bicicleta desgovernada quase me atropelou! “Olha para onde anda com essa porra!” - eu quis reclamar. Mas logo me coloquei a rir ao ver que eu quase fora atropelado por uma velha amiga. Quanto tempo não a via.
01 junho, 2006
XVI - Naquele Dia...
Eram quatro e trinta da manhã, assim como foram todos os dias durante toda a minha jornada de trabalho. Nunca se sabia se ia fazer frio ou calor lá fora, exceto pela minha mãe. O galo do tempo desafiava adivinhas mudando de cor todos os dias e o dia inteiro, mas minha mãe acertava mais que ele, e ela nem mudava de cor.
Nesse dia eu saí de blusa de lã e cachecol. Tinha uma touca e um par de luvas também e enquanto caminhava, brincava de cigarro com a fumaça quente que saía da minha boca. Como de rotina, depois que a fumaça pára de sair, começo a observar tantos outros “Eu” saindo de suas tocas e seguindo pela mesma direção que eu.
Alguns saíam mais cedo, outros mais tarde, alguns por sua vez voltavam por ter esquecido algo e outros tropeçavam nas calçadas irregulares, mas eu me continha nos risos, afinal, atrás de mim mais “Eu” vinham observando, talvez, as mesmas paisagens.
Naquele dia fez calor, e eu quase derreti, como tantos outros.
Nesse dia eu saí de blusa de lã e cachecol. Tinha uma touca e um par de luvas também e enquanto caminhava, brincava de cigarro com a fumaça quente que saía da minha boca. Como de rotina, depois que a fumaça pára de sair, começo a observar tantos outros “Eu” saindo de suas tocas e seguindo pela mesma direção que eu.
Alguns saíam mais cedo, outros mais tarde, alguns por sua vez voltavam por ter esquecido algo e outros tropeçavam nas calçadas irregulares, mas eu me continha nos risos, afinal, atrás de mim mais “Eu” vinham observando, talvez, as mesmas paisagens.
Naquele dia fez calor, e eu quase derreti, como tantos outros.
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